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fica parado à porta e eu nem vejo, estou de costas fazendo coisas como escrever, limpar cinzeiros ou olhar o céu pela janela. fica parado à porta por uma porção de tempo, e eu nem vejo, mas dura pouco.

em seguida algum toque quente como um olhar fixo começa a me queimar a nuca, então abandono o que estou fazendo, seja o que for, e não sei bem se me volto lenta ou rapidamente, para surpreendê-lo no momento exato de baixar os olhos e afastar a mão apoiada na parede, como se recém chegasse e não estivesse parado ali uma porção de tempo, olhando.

sei que está de azul, ou verde ou branco, talvez os três juntos, talvez outros ainda, talvez nenhum: mas me volto rápida ou lentamente, e nesse momento qualquer coisa que tenho entre as mãos cai ao chão, e antes de dizermos qualquer coisa há a necessidade quase milenar de curvar-se para apanhar o objeto caído, um livro, um cigarro, provavelmente uma estrela.

e só depois ou durante o tempo em que vêm subindo no ar as mãos douradas, segurando essa coisa qualquer, é que nos olhamos e começo a entrar no mar sem medo antigo, e pela primeira vez a água não parece nem fria nem escura, nem arde nos olhos quando mergulho. mergulho fundo para voltar em seguida à tona, mas não consigo, qualquer coisa como algas ou raízes ou peixes ou mesmo estrelas me prendem a esse fundo de fogo claro. e me debato sem vontade, sabendo que além da superfície há um dia esmaecido e que ainda é outono.

caio fernando abreu em "qualquer coisa" . porto alegre, 1973 .

* para tamara, que me iluminou este texto e muitas coisas mais.

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o que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo

fragmento de "a máquina do mundo", poema de carlos drummond de andrade em "claro enigma" . rio, 1951

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orgulhosamente, oito episódios desta bagatela estão integrando a exposição blooks . letras na rede, no instituto oi futuro, rio de janeiro. a mostra reúne diferentes flexões da prática literária que estão tomando conta do fantástico mundo da internet.

quem é esperto corre atrás do bonde no outro palco, o pirotécnico:
http://fogo-de-artificio.blogspot.com

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. uma busca .

de teus movimentos nada afirmo, pois deles nada sei. apenas pressinto um gigantesco giro. sou cego aos teus desígnios - deles nunca pude entrever a menor parte. do teu rosto antigo só me restou uma sombra suja, rascunhada, que guardo dentro de uma gaveta de papéis. o teu nome não me foi revelado. o teu corpo é arcaico, eu sei, mas nunca pude tocá-lo. ainda que eu deseje com força, ele não se mostra. ouço notícias do teu esplendor. dizem que perambulas por aí seguido por um séquito. dizem que habitas um templo e que tens um oponente terrífico. mas nada sei dos teus roteiros, não posso seguir-te em teus périplos. e tampouco tenho notícias do teu paradeiro. sei apenas, por advinhação, que é imenso o teu reinado e que os teus braços são do tamanho de cordilheiras e que com apenas um passo cruzas um oceano e que os teus olhos emitem uma luz tão forte que fulmina qualquer um que se atrever a te olhar de frente. e estás aqui, tão perto, mas me foges quando estendo a mão. nada sei dos teus trabalhos, nada sei dos teus ritmos. eu não concordo com teus mandamentos. mas desejo com ardor a tua vinda. disseram certa vez que estavas morto. muitos creram, muitos confirmaram. mas sei que tens o curioso dom de sobreviver à tua própria morte. e sei que tens um poder insidioso capaz de se infiltrar no coração dos homens. és sorrateiro, cínico e dissimulado. estás sempre onde não te suspeitam, mostras sempre o teu poder onde ele não é necessário. e estás aqui, ao meu lado, como uma chama invisível ou mesmo dentro de minha carne, como um habitante intruso. e me consomes por dentro, escorragas para o meu interior quando estou distraído, operas em meu peito arranjos que desconheço, trabalhas em mim na surdina, como um secreto operário. és refulgente, mas não consigo ver a tua luz. és imenso, mas meus olhos são pequenos demais para abarcar-te. és violento e forte - e eu sou uma criatura tão miúda. sou vacilante enquanto és firme; sou temeroso enquanto és pura coragem. eu tento agarrar teu corpo em sonhos, teu corpo que é feito de magma e rocha vulcânica, teu corpo que é misturado com pedras, que é um corpo de galhos, de húmus, em outras horas um corpo de titânio. eu tento acompanhar um vôo teu mas tuas alturas são vertiginosas. eu tento navegar contigo em mares, mas não há bússola que dê conta dos teus itinerários. eu tento arrancar de ti uma palavra mas tua língua é feita de grunhidos, de trinados, de trovões. sei que estás aqui, escuto uns ecos, recebo presságios. mas nunca te dignaste a aparecer em minha casa, mesmo sabendo do meu endereço completo. e nunca me enviaste uma carta, nem mesmo um bilhete me escreveste, nada. eu não desisto fácil e tento atrair a tua presença com mantras, ladainhas e cantilenas. e procuro produzir em mim um silêncio tão fundo que de dentro dele possa emergir a tua voz. e respiro de forma ritmada e lenta para que todo o meu corpo fique iluminado. mas não vens, és teimoso, és árduo, não vens enquanto eu te procuro e só te mostras quando esqueço de te procurar.

ygor raduy em a maçã no escuro . 2006 .

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se tivessem liberdade de perseguir seus objetivos naturais, os instintos básicos do homem seriam incompatíveis com toda a associação e preservação duradoura: destruiriam até aquilo a que se unem ou em que se conjugam.

herbert marcuse em "eros e civilização" . boston, 1955 .

. . . . .

. fragmento do primeiro capítulo .

[...]

subitamente a palma crispou-se, mas não o rosto perfeito, que permaneceu sereno, maquiado com graduações do rosa ao azul. imediatamente a mulher mais bela do mundo acordou, trêmula de medo. o rosto adquiriu expressão. os cílios naturais, que pareciam postiços, pelo tamanho e curvatura, sombreavam olhos escancarados. acabara de conhecer, em sonho, um médico obeso, vestido a rigor, que pendurava sua cartola, calçava luvas brancas de borracha, aproximava-se dela, estendida sobre imensos flocos de algodão e, com um bisturi, abria-lhe o peito: aparecia - em lugar do coração - um complicado mecanismo de relojoaria. era uma boneca mecânica e quebrada, e não uma mulher, aquela que ali jazia.

um profundo suspiro de alívio deu fim ao pesadelo. nada havia a temer, todos os perigos eram apenas imaginários. olhou em volta e tudo era novo na alcova à meia-luz, a noite de núpcias ainda não cedera a vez ao dia, mas ao seu lado não havia ninguém. perto de uma das mãos estava o espelho de cabo lavrado em prata, onde seus lábios se refletiram pintados, parecendo retocados havia instantes. lembrava-se de pouca coisa: um brinde com o marido, suas têmporas grisalhas ou brancas, o monóculo examinando-a a cada instante, uma taça quadrada que ela não sabia como pegar, o néctar fresco e nada mais.

se a maquiagem estava intacta, era porque o rosto havia sido respeitado... resolveu passar a mão direita pelo resto do corpo. estendeu e recolheu-a quase imediatamente, sua mão esquerda, menos sensível, pareceu-lhe a mais adequada para tal inspeção. logo notou um trecho de pele ardida pouco acima da clavícula. sobre um seio, três ou quatro marcas de dentes em arco, que já quase não doíam. seu ventre, em compensação, não denunciava nenhum assalto, mas o baixo ventre, sim: úmido, inflamado, com um íntimo dilaceramento.

manuel puig em "púbis angelical" . buenos aires, 1979 .
+ madame de tourvel (michelle pfeifer) e vicomte de valmont (john malkovich) em "ligações perigosas", de stephen frears . 1989 .
+ antony and the johnsons . "man is the baby" .
+ nesa paripovic . "primeri analiticke skulpture (série 20-teilige)", 1978 . moca, belgrado .

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. don't [let] me be misunderstood .

[...]

viver de dedução, é assim que eu vivo [não é, menina], à espreita dos fatos, à beira dos atos, como se tudo estivesse suspenso só pra assistir à dança fora de moda que eu te propus, um segundo em que tudo parasse de rodar pra acompanhar o movimento mínimo da vontade, uma pausa para o encanto que não coube na tua agenda.

e eu, presa dos meus vícios, vítima do discurso, me embrulhando num papel todo novo pra te dar, eu te vi ter pressa, essa pressa sem direção que chamamos de curiosidade, essa necessidade infantil e tão natural de saber o que o mundo tem a oferecer. eu vi o teu futuro na minha frente e vi meus braços serem pouca rédea pros teus músculos sadios e sem questão.

eu vi como há muito tempo não via a poesia sorrir pra mim. sorri de volta, corri com meu cavalinho pra chuva e achei que assumir o risco era menos ridículo do que de fato é. eu vi métrica no teu texto, vi semiótica nos teus códigos, vi um encontro onde você viu exercício de estilo.

é de perder ilusões que se vive, menina, de olhar para as evidências sem entrelinhas, nem óculos escuros. eu vou aprendendo com o tempo tudo o que você já sabe de cor.

à moda de . fogo de artifício .

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. poema para encorajar hélices .

começam nos olhos
os passos inseguros
da criança

que recebe uma travessa
de vidro para transportar
até a mesa posta pro almoço

ela caminha devagar, passo a passo
em suas mãos pesa o compromisso,
e, frágil, o mundo inteiro.

bruna beber em cutelaria & chapelaria . 2007 .

* participação especial do aaihnn, o podcast mais conceitual da podosfera.

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i am in need of music that would flow
over my fretful, feeling fingertips,
over my bitter-tainted, trembling lips,
with melody, deep, clear, and liquid-slow
oh, for the healing swaying, old and low,
of some song sung to rest the tired dead,
a song to fall like water on my head,
and over quivering limbs, dream flushed to glow

there is a magic made by melody:
a spell of rest, and quiet breath, and cool
heart, that sinks through fading colors deep
to the subaqueous stillness of the sea,
and floats forever in a moon-green pool,
held in the arms of rhythm and of sleep

elizabeth bishop em "sonnet" . natick, 1928 .

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não te equivoques, nathanael, ante o título brutal que me agradou dar a este livro.

nele me pus sem arrebiques nem pudor; e se nele falo por vezes de lugares que não vi, de perfumes que não cheirei, de ações que não cometi – ou de ti, nathanael, que ainda não encontrei – não é por hipocrisia, e essas coisas não são mais mentirosas do que este nome que te dou, nathanael que me lerás, ignorando o teu, ainda por surgir.

quando me tiveres lido, joga fora este livro – e sai. sai do que quer que seja e de onde seja, de tua cidade, de tua família, de teu quarto, de teu pensamento. que o meu livro te ensine a te interessares mais por ti do que por ele próprio – depois por tudo o mais – mais do que por ti.

andré gide em “os frutos da terra” . paris, 1927 .

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. discurso ao osso .

muito antes de ser uma circunstância física ou uma questão de estilo, a magreza é um tipo de higiene, um código de ética, um lugar de onde se percebe o mundo. os magros vivem sob o eterno risco de um impacto: choques domésticos tomam proporções impensadas, a lotação dos transportes coletivos preocupa, a experiência do sexo requer educação frente à grosseria elástica popularizada pelo erotismo comercial.

[...]

a verdade exclusiva desse ente tão estranho que é o corpo se traduz em quanto menor a distância entre aquilo que aparentamos ser e aquilo que não nos deixa mentir quem somos, em quanto menor a guarda entre a superfície e o osso – cálcio-sumário dos danos e gozos da vida.

à guisa de . fogo de artifício .

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. pomo .

da vida só têm substância
a casca e o caroço
no meio só tem amido
embromações do carbono

porém todo o gosto reside
nessa carne intermediária
sem valor alimentício
sem realidade
sem nada

é nela que os dentes encontram
o que os mantém afiados
com ela é que a língua elabora
a doce palavra

paulo henriques britto em "mínima lírica" . rio, 1989 .

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(...)
eu agora mergulho e ascendo como um copo.
trago para cima essa imagem de água interna.
- caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
tudo morre o seu nome noutro nome.

poema não saindo do poder da loucura.
poema com base inconcreta de criação.
ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
porque eu sou uma vida
com furibunda melancolia,
com furibunda concepção.
com alguma ironia furibunda.

sou uma devastação inteligente.
com malmequeres fabulosos.
ouro por cima.
a madrugada ou a noite triste
tocadas em trompete.
sou alguma coisa audível,
sensível.
um movimento.
cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
ou flores bebendo a jarra.
o silêncio estrutural das flores.
e a mesa por baixo.
a sonhar.

herberto helder em "poemacto" . lisboa, 1961 .

* esta é uma parceria com eugénia lopes, uma poeta portuguesa extemporânea de fernando pessoa que já mudou a minha vida algumas vezes. é uma poeta com quem eu não tenho acordo prévio: às vezes ela traz a música e eu o poema. às vezes, é na base do vice-versa. para nós, pouco importa que eles, os poemas e as canções, não sejam nossos. é assim que os tomamos porque para o risco que nasceram. há muito tempo ela me trouxe esse golpe de faca do herberto helder e o que faço aqui é uma tentativa atrasada de agradecê-la pelo compromisso com o longe e a miragem que está continuamente me inspirando a assumir.

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. route de collision .

uma carreira só se termina
com teco bem dado
num gesto plástico
num golpe de frente

pra refração do choque
ou absorção do impacto
há peito que se lance
ao campo de combate

cartão vermelho lá em casa
vira green card

para zinedine zidane, na final da copa de 2006

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. rodando a bossinha .

entre os dias
e horas marítimas,
descortinadas,
carcomidas

a cidade se desliga
feito vitrolinha

e existe algo
de suspeito,

uma fugaz vulgaridade
teatral

perdida

algo pralém
do que é corpo,
trabalho,
arte,
vida

existe o silêncio das coisas
que não precisam ser ditas

a mulher que gratuitamente
me mostra as tetas

só quer
naturalmente
ser reconhecida

e vai saber

umas duzentas
e quarenta
e três
noites

varadas a assaduras
& biritas

caio carmacho em noutra tez . 2006 .

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franzida e obscura como um ilhós violeta,
ela respira, humilde, entre a relva rociada ainda do amor
que desce a branda rampa das brancas nádegas
até o coração da greta

filamentos iguais a lágrimas de leite
choraram sob o vento atroz que os arrecada
e os impele através de marnas arruivadas
até perderem-se na fenda dos deleites

beijando-lhe a ventosa, o meu sonho o freqüenta
a minha alma, do coito material ciumenta,
qual lacrimal e ninho de soluços
usa-a

athur rimbaud em "les stupra" . paris, 1923 .
foto . "amante menguante", de pedro almodóvar caballero . madri, 2001 .

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. neighborhoods .

se o mundo não fosse
esse aterro de
máquinas
barbas
pilhas

cálculos
prazos
e canetas
marca-texto

débitos
medos
cláusulas

flâmulas
dúvidas
e embalagens
tetrapack

se o mundo não fosse
feito de listas

se o mundo não fosse
um aterro de babacas
ou se o mundo não fosse
um abrangente
e resumido
aterro de sinônimos

e se essa rua
se essa rua
fosse tua
eu ia me mudar pra lá

bruna beber de lima* em "a fila sem fim dos demônios descontentes" . rio, 2006 .

* a melhor poeta que eu conheço. eu, e muita gente mais importante do que eu..

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a escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente
areia e mais areia construindo no sangue altíssimas paredes de nada

al berto em "doze moradas de silêncio" . lisboa, 1979 .

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. vivinho da silva .

às vezes dá vontade de
subverter a ordem
abandonar o script
esquecer a proposta
[como chama isso]
[o próprio roteiro]

e fazer da vida
uma notícia nova

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para quem duvida, irará, santo amaro e são luís do maranhão cabem no mesmo balaio de gato. ou seria gata?

. definição da moça .

como defini-la
quando está vestida
se ela me desbunda
como se despida?

como defini-la
quando está desnuda
se ela é viagem
como toda nuvem?

como desnudá-la
quando está vestida
se está mais despida
do que quando nua?

como possuí-la
quando está desnuda
se ela toda é chuva
se ela toda é vulva?

josé ribamar ferreira gullar em "muitas vozes" . rio, 1999 .

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disse que o que nos unia era vermelho e viscoso.
depois sumiu sem deixar o endereço.

eu fiquei com o vermelho no peito, o viscoso na boca e esse texto que sobreviveu a duas enchentes. então, eu desvirgino a bagatela publicando um trunfo do nosso repertório particular, gravado há algum tempo e escrito há mais tempo ainda.
vai ver alguém reconhece o cartaz de [procura-se].
vai ver alguém encontra a pista por aí.

. para alegrar coração de moça .

(...)
é dali que se projetam os olhos:
confessando em disciplina precisa o pouco que lhes convém,
eles aplicam sobre quem os mira
a sensação de estranho deslumbramento tão cara
a certas qualidades de vir-a-ser, de vibração interior, de assombro e desvario.
seus olhos não se rendem ao vício precipitado de uma psicologia dos sentidos
nem sucumbem a qualquer estudo invasivo.

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