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fica parado à porta e eu nem vejo, estou de costas fazendo coisas como escrever, limpar cinzeiros ou olhar o céu pela janela. fica parado à porta por uma porção de tempo, e eu nem vejo, mas dura pouco.

em seguida algum toque quente como um olhar fixo começa a me queimar a nuca, então abandono o que estou fazendo, seja o que for, e não sei bem se me volto lenta ou rapidamente, para surpreendê-lo no momento exato de baixar os olhos e afastar a mão apoiada na parede, como se recém chegasse e não estivesse parado ali uma porção de tempo, olhando.

sei que está de azul, ou verde ou branco, talvez os três juntos, talvez outros ainda, talvez nenhum: mas me volto rápida ou lentamente, e nesse momento qualquer coisa que tenho entre as mãos cai ao chão, e antes de dizermos qualquer coisa há a necessidade quase milenar de curvar-se para apanhar o objeto caído, um livro, um cigarro, provavelmente uma estrela.

e só depois ou durante o tempo em que vêm subindo no ar as mãos douradas, segurando essa coisa qualquer, é que nos olhamos e começo a entrar no mar sem medo antigo, e pela primeira vez a água não parece nem fria nem escura, nem arde nos olhos quando mergulho. mergulho fundo para voltar em seguida à tona, mas não consigo, qualquer coisa como algas ou raízes ou peixes ou mesmo estrelas me prendem a esse fundo de fogo claro. e me debato sem vontade, sabendo que além da superfície há um dia esmaecido e que ainda é outono.

caio fernando abreu em "qualquer coisa" . porto alegre, 1973 .

* para tamara, que me iluminou este texto e muitas coisas mais.

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